Dr. Maurício T. Yamamoto, fígura ímpar que Marília tem orgulho de ter em seu histórico, unanimidade como pessoa, médico e atleta.

No ACxMED de 2022 nossa casa, o Bar da Atlética, foi nomeada em sua homenagem.

Inaugurando o site da Atlética, que conta nossa linda história, temos os relatos de:

Serjão (Turma 30) – Judô / Beisebol
Hoje: Dr. Sérgio Tadeu

Acredito que para a maioria de nós, resumir em poucas palavras o que o Buda, menos conhecido como Maurício Toshio Yamamoto, (turma 30) representou à FAMEMA no fim dos anos 90 e começo dos anos 2000 é lembrar de suas icônicas atuações nas poucas pré-intermedes – ufa! – e intermedes pela nossa equipe de judô. Como não nos lembrarmos das quartas-feiras pela manhã e de momentos como a famosa contagem regressiva?

Chegamos na faculdade em 1996. Ele já estava consagrado no judô porque tinha acabado de conquistar o campeonato paulista em sua categoria, acho que na época era júnior, sempre no peso pesado – um dos campeonatos estaduais mais disputados até os dias de hoje. Esse título lhe custou sua primeira lesão de ligamento cruzado anterior no joelho direito. Estava recém-operado dessa lesão e por isso, desestimulado, quase não treinou no primeiro ano de faculdade – também estávamos expulsos da pré-intermed e não havia uma motivação para que retornasse aos tatames.

No entanto, no fim de 1996, fomos para uma competição amistosa em Florianópolis – a Intermed-Sul. Essa viagem o despertou para uma competição de judô muito diferente do que estava acostumado. A torcida não se resumia aos amigos de academia e alguns familiares. A torcida era enlouquecida e apaixonada.

Mesmo sem treinar, Buda foi um show à parte. Seus adversários não conseguiam esboçar reação à sua técnica e força. Acho que foi ali que ele voltou a se interessar em competir e começou a incentivar a todos, inclusive atletas de outros esportes e a mim – eu, coitado, desprovido de talento no judô. Sua energia e entusiasmo eram contagiantes, até os alunos que nunca praticaram esportes procuraram um lugar para participar, nem que fosse para bater palmas na Batrucutu.

Com o Buda na equipe, treinar era uma obrigação prazerosa. Pessoa de bom coração, caráter, fácil convívio e tantas outras qualidades que não se resumiam ao esporte. Sempre me impressionou sua capacidade agregadora.

Conquistamos o campeonato da pré de Itu (subimos e não mais caímos), o vice na Intermed de Americana – fomos roubados.

Fomos campeões das Intermedes de Barra Bonita e Santa Rita do Passaquatro.

Chegamos em nosso sexto ano, 2001, como favoritos a mais um título, de novo em Barra Bonita.

Em nossa pré-temporada (até isso fazíamos) fomos lutar, representando a cidade de Marília, nos Jogos Abertos do Interior. Quis a história que o Buda sofresse uma nova lesão de ligamento cruzado a menos de 3 meses da nossa última Intermed. Não havia tempo para mais uma cirurgia. Então, em equipe, decidimos que ele faria apenas a luta da final.

Tamanha era sua motivação que amarrou câmaras de pneu de bicicleta em torno do joelho, buscando alguma sustentação, a ponto de garrotear sua perna. Para nossa infelicidade seu adversário foi o atleta mais forte da equipe adversária, mas ele não se entregou e acabou perdendo por falta de combatividade – NÃO CAIU! Suportou a dor e ficou de pé. Como grande exemplo que sempre foi, acabamos nos consagrando campeões!

Deixarei para falar de outras e tantas aventuras, vitórias – mais do que derrotas, títulos nos tatames em outro momento.

O Buda residente de ortopedia do HC-FAMEMA foi homenageado, se não me engano, por todas as turmas dos seus 3 anos de residência. Até fazer gostar de ortopedia ele foi capaz – detalhe, quase fiz ortopedia na FAMEMA por causa dele – Prof. Roberto Mizobuchi chegou a me oferecer a vaga de estágio, mas fui teimoso. Acho que alguns de nossos amigos fizeram Ortopedia por sua influência!

Depois veio trabalhar em São Paulo, no Hospital da Vila Alpina, onde ficou até seus últimos dias. Claro que ali também deixou sua marca, fez muitos amigos e admiradores e, mesmo longe da FAMEMA, continuou contribuindo com a faculdade – muitos egressos da FAMEMA que foram para São Paulo encontraram no Buda e no Hospital da Vila Alpina um porto seguro!

Estive relutante em me manifestar sobre esse irmão que nos deixou, inclusive com as pessoas mais próximas, nesses pouco mais de dois meses desde que “resolveu” nos deixar. Ele está comigo quase que diariamente e comentei com alguns poucos amigos e com minha família que, quem sabe, até em sua partida ele foi benevolente! Tenho a impressão de que nos preparou para que suportássemos sua ausência com menos dor!

Meu mais sincero muito obrigado ao Zezé, turma 54, presidente da AAASC 2022 – e ao Bimba (34) – outro irmão que o judô da FAMEMA me deu e que até hoje tenho o prazer em conviver semanalmente – por terem me dado a honra de escrever esse breve relato. Claro que estou com os olhos daquele jeito…, mas o coração tranquilo e feliz por ter tido oportunidade de conviver, aprender, rir, chorar com meu saudoso compadre, amigo e irmão, BUDA!

Vinicius Vandré Trindade Francisco

(Ronaldinho XXXI)

Muito já se contou sobre o Buda atleta, porém todas as histórias de seus feitos esportivos não são capazes de dar a dimensão de que ele não era somente um judoca imbatível, mas também um ser humano extraordinário.
  Tive o prazer de ser o companheiro de equipe mais longevo do Buda na Famema, e quem é do judô sabe muito bem o tipo de laço que essa proximidade causa. É uma irmandade que ultrapassa o esporte e cria uma amizade de sangue. Terminada nossa jornada como atletas da Famema, montamos uma república quando residentes, ele de Ortopedia e eu de Clínica Médica, juntamente com o Hiro (XXXII) outro judoca e enxadrista excepcional que tivemos, conhecido pelas poucas palavras e pelo seoi-nague indefensável.
  Jovens médicos em início de carreira, amparávamos uns nos outros para conselhos e desabafos. Sempre disposto, Buda nunca estava cansado demais ou tinha algum compromisso mais importante que o impedia de ouvir pacientemente o que tinha pra dizer. Muitas vezes, ele acabou por se prejudicar para ajudar aos outros, e quando residente, não foi diferente.
  Generosidade era outra característica que ficava evidente: não tinha apego material a nada e fazia questão de compartilhar tudo o que tinha. Certa vez, quando precisei de um avalista para um empréstimo, não quis saber o valor ou como eu pretendia pagar; só perguntou: “onde eu assino?”.
 O Buda continuou a fazer parte dos principais momentos de minha vida: foi com muito orgulho que o tive como padrinho do meu casamento, numa época em que o costume era chamar uma ou duas pessoas para tal honraria; quando finalmente consegui minha graduação na faixa preta (da qual ele sempre foi um grande incentivador), comemoramos juntos. Morando em São Paulo como R3 e R4, descobríamos os melhores restaurantes do bairro da Liberdade juntos.
  Quando nos separamos geograficamente, ainda mantivemos contato, mas a vida tem a mania de nos atropelar com coisas sem importância e a frequência com que nos falávamos foi diminuindo, mas mesmo assim, volta e meia recebia uma ligação e antes que eu dissesse alô, já ouvia: “e aí, Vandré?” e era como se tivéssemos nos visto há poucos dias.
  Todos que conviveram com o Buda sabem do que estou falando, pois tiveram o prazer de conhecer sua bondade, generosidade, paciência e amizade. Perdemos um dos bons, mas ainda assim, podemos e devemos manter sua memória viva e se conseguirmos ser um pouquinho como ele, estaremos deixando o mundo melhor.